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Modelo industrial
Engenheiro de produção, o diretor presidente da Método
aponta as vantagens de se aplicar na construção civil
conceitos da indústria
Texto original de Kelly Carvalho
Trazer para a construção
características comumente utilizadas nas atividades de
produção industrial foi uma das tacadas iniciais da Método
Engenharia, construtora paulista que soma uma carteira de mais
de R$ 1 bilhão de empreendimentos em construção e é vista pelo
mercado como gestora de projetos complexos. A estratégia
inicial da empresa foi baseada no trinômio desenvolvimento
humano, tecnológico e de gestão. Ao longo dos 30 anos de
existência, deixou gradualmente de empregar métodos
tradicionais de construção em favor de modernas tecnologias e
materiais que chegaram ao País com a abertura de mercado. Foi
uma das primeiras a utilizar o gesso acartonado em escala.
?Percebemos que apenas a racionalização dos métodos
tradicionais de construção não seria suficiente para nos
colocar no patamar que queríamos?, explica Hugo Marques da
Rosa. A empresa se diferencia ainda pelo relacionamento com
fornecedores e parceiros estratégicos. Em seus quadros, a
empresa aposta agora na formação do gerenciador de projetos
para comandar a obra do começo ao fim e inicia uma
reorganização administrativa.
A Método motivou uma verdadeira revolução na construção civil
com a introdução da engenharia de produção. O senhor e seu
sócio são engenheiros de produção. Qual foi o diferencial que
isso deu à Método?
A diferença foi trazer para a
construção civil os conceitos da indústria. Desde que fundamos
a Método, em 1973, tínhamos essa intenção, mas só foi possível
colocá-la em prática a partir de meados da década de 80.
Quais são esses conceitos?
Um desses conceitos, simplificadamente, teve origem no fim do
século XIX e início do século XX e é baseado na idéia de que o
trabalho deveria ser planejado e utilizado levando em conta
conceitos de produção em série, de controle de tolerâncias de
ergonomia, e foi avançando em pesquisas para melhoria da
produtividade. Esse movimento foi muito forte, e a partir de
meados do século passado iniciou-se um outro que foi o de
recursos humanos, da valorização das pessoas, que se originou
na indústria. Começou nos Estados Unidos e na Europa,
principalmente na Suécia, e depois se generalizou por volta da
década de 60. No Brasil esse movimento demorou para chegar.
Quais fatores motivaram a adoção desses modelos de produção?
Um deles foi a falência do modelo de
desenvolvimento das décadas de 60 e 70, que levou a um
crescimento acelerado das importações e da dívida externa.
Outro fator foi o processo de redemocratização, que levou
principalmente o setor da construção civil, que na década de
70 tinha o governo como seu principal cliente, a se
reposicionar. Esses fatos abriram terreno para que nós
começássemos um movimento baseado em três vertentes
principais: o desenvolvimento tecnológico, desenvolvimento de
recursos humanos e desenvolvimento da gestão. Na década de 90
aprofundamos esse desenvolvimento tecnológico e passamos a
trazer alguns sistemas construtivos em uso no exterior.
Em uma entrevista para a revista Téchne, o engenheiro da Inpar
Luiz Henrique Ceotto disse que era impensável uma volta aos
métodos construtivos convencionais. O senhor também acha isso?
Construção competitiva tem que ter tecnologia agregada?
Sem dúvida, essa é uma conclusão a que nós também chegamos.
Quando planejamos nosso desenvolvimento tecnológico, optamos
num primeiro momento por manter e melhorar o modo de construir
convencional usando conceitos de racionalização do trabalho.
Também passamos a resgatar a auto-estima do trabalhador,
porque o funcionário da construção naquela época não via sua
atividade como uma profissão qualificada. Porém, verificamos
que isso não era suficiente para avançarmos mais. Era
necessário romper com o modo convencional, e aí a Método foi
responsável pela introdução no Brasil de várias tecnologias
como o dry wall e as fachadas pré-moldadas. Quando se
experimenta uma nova tecnologia, não se volta para trás.
Imagine hoje virarmos concreto na obra, cortar e dobrar aço. É
impensável.
Como é a organização administrativa da Método e como isso se
afina com a maneira de construir adotada pela empresa?
Estamos mudando nossa estrutura organizacional. Nós passamos
por uma fase de criação de unidades de negócio, depois
começamos a segmentação de mercado e agora estamos caminhando
para uma estrutura matricial, com ênfase na parte operacional:
vamos unificar a responsabilidade pelo projeto. É uma
estrutura em que há um gerente para cada projeto, responsável
do início ao fim, desde o momento de qualificação do projeto
até o pós-obra. Antes o cliente tinha um primeiro contato com
a área comercial, depois conversava com alguém da área de
engenharia para fazer a proposta e só depois tratava com o
gerente de contrato. A assistência técnica e manutenção
ficavam ainda a cargo de outra pessoa. Esse novo modelo acaba
com tudo isso.
Na prática, como esse
gerenciador vai operar todo o processo?
O processo inteiro deve contemplar o gerente daquele projeto.
Ao mesmo tempo, para que esse project manager possa
desempenhar sua função, dividimos nossa atividade produtiva
com gerentes de sistemas que alimentam esse projeto principal
executando a gestão da produção em vários itens: estrutura e
fundações, fachada, instalações, fechamento interno,
acabamento, elevadores, ar-condicionado. Assim, temos uma
matriz, que é o project manager, junto com os systems managers.
Qual é o tipo de profissional em
ascensão na Método? O que vocês procuram?
Nessas três vertentes que citei, desenvolvimento tecnológico,
da gestão e de recursos humanos, em nenhum momento aparecia a
figura do cliente. Era uma empresa voltada para dentro. A
partir de 1999, começamos a incorporar o cliente na nossa
estratégia e ao mesmo tempo passamos a introduzir a gestão do
conhecimento, que é aquilo que nos propomos hoje vender ao
cliente. Para operarmos dessa forma, estamos desenvolvendo
essa nova competência, que é o gestor de projetos.
O trabalho de construção do Centro
Empresarial Nações Unidas foi um marco para a Método?
Sem dúvida. Além da dimensão do empreendimento, o Cenu é o
mais avançado prédio de escritórios feito no Brasil. É um
marco não só para a Método mas para toda a cidade de São
Paulo.
Quais
as obras mais rentáveis para a Método?
Não há um tipo de obra mais rentável, nós atuamos dentro de uma faixa de
remuneração que independe da natureza da obra. Nossa remuneração está
diretamente associada ao risco do empreendimento e ao valor que agregamos a ele.
Quando participamos de uma construção pura, em que simplesmente recebemos o
projeto e executamos, a nossa remuneração tende a ser menor. Quando assumimos
responsabilidades maiores participando de alguma forma do risco recebemos parte
do valor que agregamos. Nós temos muitos contratos cuja remuneração tem um
componente em função da nossa performance.
Na Europa, especialmente na Inglaterra, existe um
profissional chamado de quantity surveyor. Ele é encarregado de afinar a
especificação dando subsídios de composição de custos. É o profissional autônomo
especialista em consultoria de custos. Muita gente acha necessário esse tipo de
profissional aqui também. A Método possui instrumentos, bancos de dados ou mesmo
pessoas para tornar mais precisas as suas estimativas de custos?
O que acontece é que trabalhamos já há algum tempo com um modelo trazido da
indústria automobilística que é a contratação de sistemas. A gente tem evitado
comprar materiais e serviços. Compramos sistemas. Nós compramos ar-condicionado
e não duto de um fornecedor e schiller do outro. Quando fazemos uma curva ABC
das contratações, normalmente nas aquisições, nós temos sistemas que têm um peso
enorme no custo das nossas obras e poucos fornecedores, o que representa uma
parcela muito grande do nosso custo. O que sobra para compras picadas é muito
pouco, não há uma necessidade desse profissional, até porque temos essa
inteligência interna.
Qual
o impacto das mudanças orçamentárias ao longo da obra? Como elas são
administradas?
Existem várias situações. Normalmente procuramos nos ater ao orçamento, seja nas
obras contratadas por turn key seja nas obras por regime de administração.
Quando acontece algum problema, em que a obra começa a ficar muito fora do
orçamento por qualquer razão, tenta-se compensar os aumentos de custo que
acontecem num determinado item e tentar reduzir isso, porque quando fazemos um
orçamento, é impossível acertar tudo. Orçar uma obra é como construí-la no
papel, simulamos uma série de coisas, porque não é só estabelecer preço. Por
exemplo, não basta saber o preço da grua, mas quanto tempo a grua vai ficar na
obra, em quanto tempo a estrutura vai ficar pronta, quais materiais vão ser
transportados e tudo mais.
Quer dizer, o orçamento mais preciso possível
depende do bom planejamento da obra.
Da mesma forma que os custos indiretos, o orçamento implica ter que construir a
obra toda no papel, pensar no detalhamento da engenharia e também num
planejamento, e quando a gente vai para a prática, as coisas não acontecem
exatamente do jeito que a gente planejou. Então, a todo momento tem de estar
monitorando e controlando aquilo que está acontecendo e toda vez que há um
desvio, tentar compensar, ou então substituir. Se eu imaginei um custo e
constatou-se que é muito mais caro do que o previsto, deve-se trocar aquilo por
outra coisa que dê o mesmo resultado com um custo menor. O que faz muitas vezes
ter um grau de incerteza muito grande num orçamento é um projeto pouco
detalhado, assim, alguns itens com grau de incerteza muito grande, você coloca
no seu orçamento uma verba de contingência.
Quais são as margens de lucro da construtora?
Isso é muito difícil
de dizer, mas hoje o setor, não só a Método, trabalha com margens de remuneração
de 6 a 12% dependendo de uma série de fatores. Tem que tirar despesa indireta,
impostos, despesas financeiras. Os custos financeiros envolvidos em cada
contrato afetam muito as margens de lucro.
As incorporadoras e empresas
contratantes são hoje mais profissionais nas relações com as construtoras ou
ainda ocorrem intervenções fora de hora?
O mercado está cada vez mais profissional. Nas
concorrências que participamos, eu percebo que o cliente está mais preparado e
exige mais das empresas de engenharia. Todo o mercado está se qualificando, os
fornecedores estão prestando melhores serviços para os clientes, que estão
demandando não só baixo custo, mas melhor qualidade do fornecedor.
O senhor acredita num maior
impacto no setor da construção com a volta da inflação?
Não. Esse é um momento de inflação de custos gerado
pelo ajuste cambial em decorrência da desvalorização do real. Há um impacto de
custo de vários insumos que está sendo repassado nos preços. O câmbio mudou de
patamar. Acredito que se isso se mantiver, a inflação tende a cair. Não havendo
a reindexação da economia, não há realimentação, a inflação pode subir por
alguma razão, mas depois estabiliza.
Nesse meio tempo, o que o
pequeno e médio construtor podem fazer para minimizar o impacto gerado pela
inflação?
No caso de impactos excessivos, a empresa deve
procurar seu cliente e negociar o reajuste do contrato. Nas obras em que são
usados insumos importados, por exemplo, é óbvio que a variação cambial brutal
impõe a revisão do preço inicial. É preciso ajustar preços que tiveram
comportamento fora da curva. Em uma obra mais longa, que vai sofrer o impacto da
inflação, por mais baixa que seja, deve-se fazer uma previsão, embutir não só o
preço da construtora mas o dos fornecedores também.
Como se estipula um preço ao
mesmo tempo competitivo mas que resguarde também eventuais altas da inflação?
Nós temos desde contratos com mecanismos de ajuste
mensal de custos como também obras por administração, preço máximo garantido e
contratos com reajuste anual. Normalmente entramos nas concorrências com um
grupo de parceiros já fechado. A regra que adotamos com os parceiros é a mesma
para o cliente. Fazemos assim sempre que possível.
E os ajustes de contratos de
longa duração, como ficam?
É óbvio que, quando um cliente contrata uma obra de
dois anos prevendo o reajuste anual, tanto o nosso preço como o dos fornecedores
têm que embutir alguma previsão de inflação, por menor que seja. Mesmo que você
tenha uma inflação muito baixa, vamos supor de 5%, comparado com a margem, é um
número muito elevado. Muitas vezes a inflação é maior que a margem líquida
daquele contrato, então fica muito no limite. Cliente sempre paga a inflação,
explicitamente porque tem uma cláusula de reajuste ou implicitamente porque está
embutido no preço.

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