Como Funciona a produção de energia.

O Sistema Elétrico

A Ameaça de apagões e atividade solar

Energia: mínimo custo x máximasegurança

Energia: mínimo custo x máxima segurança

Produzir energia elétrica ao menor custo possível, otimizando a geração das usinas hidrelétricas e termelétricas, e ao mesmo tempo transportá-la com a máxima segurança pela rede de transmissão, para que as diferentes empresas distribuidoras a façam chegar aos consumidores. Este é o grande desafio do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico. Mais que isso, é sua missão institucional orquestrar os recursos colocados à sua disposição pelas empresas de geração e transmissão, em busca do que é melhor para a sociedade.

 

A recente crise ressaltou a importância do valor da energia elétrica para todos. O ONS tem procurado ser transparente, de modo a possibilitar maior compreensão sobre as questões técnicas e os aspectos econômicos envolvidos em suas atividades. Neste sentido, gostaríamos de fazer algumas considerações sobre recentes notícias veiculadas na mídia, na hipótese de um suposto desperdício de água nos reservatórios brasileiros, ao mesmo tempo em que usinas térmicas, que possuem um valor maior do custo da energia, estão sendo despachadas.

 

Todas as decisões sobre a operação do sistema elétrico seguem o que é estabelecido nos Procedimentos de Rede — conjunto de regras e critérios aprovados por todos os agentes de geração, transmissão e distribuição, e homologados pela Aneel, a agência reguladora. Além disso, equipes técnicas desses agentes acompanham a elaboração dos estudos pelo ONS, desde o planejamento dos próximos anos até a programação da operação do dia seguinte, o que elimina qualquer possibilidade de favorecimento de algum grupo ou empresa.

 

A otimização econômica do despacho hidrotérmico deve harmonizar-se com a segurança operativa das redes de transmissão, em um delicado equilíbrio. Para isso, é preciso levar em conta restrições das usinas hidrelétricas e termelétricas que formam o parque gerador e de todos os equipamentos que compõem o sistema de transmissão. As hidrelétricas são construídas onde há condições adequadas de vazão e desnível, e utilizam um combustível que, embora renovável, tem sua oferta dependente de onde, quando e quanto chove. As restrições dessas usinas afetam a sua produção de energia e o volume dos reservatórios, pois há limites no uso múltiplo da água (para abastecimento, saneamento, navegação e irrigação), pré-requisitos ambientais e o controle de cheias, necessário para proteger de enchentes as populações ribeirinhas. No caso das térmicas, construídas perto dos centros de consumo, os combustíveis têm custo elevado. Suas principais restrições são de geração mínima, por questões operativas ou de suprimento de combustível.

 

No Sistema Interligado Nacional, em que a energia é produzida em um grande conjunto de usinas hidrelétricas, em doze diferentes bacias hidrográficas, e complementada por geração das térmicas, temos a superposição das restrições operativas de cada usina, das características de cada bacia, dos limites decorrentes do aproveitamento energético da diversidade hidrológica entre as diferentes bacias no processo de otimização e mais as restrições da rede de transmissão que interliga as bacias entre si e aos centros de consumo da energia. São limites de fluxo nas linhas de transmissão, restrições de carregamento de transformadores e outros equipamentos nas subestações, restrições para atendimento aos critérios de confiabilidade e segurança da rede, também consideradas no despacho eletroenergético.

 

Tudo isso é analisado de modo dinâmico, adequando-se às diferentes condições de carga (variações do consumo ao longo das horas, dias e meses) à disponibilidade dos recursos de geração (maior ou menor em determinada região, bacia ou rio em determinada época, consideradas ainda as manutenções de usinas hidráulicas e térmicas) e levando em conta a situação específica da rede de transmissão em cada caso, que afeta a capacidade de transporte de energia entre subsistemas e áreas elétricas.

 

Sob o conjunto de características como as citadas acima, é plenamente normal e justificável ocorrerem, durante o período de chuvas, vertimentos em reservatórios de usinas de determinada bacia, enquanto outras estão com sua geração limitada, ao mesmo tempo em que há geração térmica mínima obrigatória ou despachada por questões de segurança elétrica.

 

Como se vê, a consideração do mínimo custo operativo não está dissociada dos aspectos de segurança e confiabilidade da rede elétrica de transmissão. Pelo contrário, são tratados de forma integrada, para que não se coloque em risco o próprio atendimento aos consumidores. Neste cenário, cabe ao Operador respeitar de forma equânime os direitos dos agentes de produção, transporte e distribuição da energia, mas buscar o que representa melhor o interesse da sociedade, sob risco de não cumprir com suas obrigações.

 

As políticas operativas, suas necessárias revisões e os resultados decorrentes de sua aplicação são previamente informados a todos os agentes e à Aneel, além de disponibilizados para toda a sociedade em nosso site www.ons.org.br. Por isso, quaisquer sugestões ou reclamações podem ser feitas em tempo hábil, pois de antemão todos os envolvidos ficam a par dos detalhes da operação. Atualizações e revisões das políticas operativas são um procedimento normal na dinâmica da gestão do sistema.

 

Queixas pela imprensa, a posteriori, nos causam estranheza e deixam a impressão de que podem ser motivadas por interesses alheios aos do conjunto da sociedade brasileira.

 

*Mario Fernando de Melo Santos
Presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico
Fonte: Folha de S. Paulo (03/03/2002)